sábado, 26 de março de 2011

As razões de Isabel

Isabel começou achando que tudo era uma questão de falar. Se ela não falava, Pedro não falava. Se Pedro não falava, ela ficava quieta. Comunicação é o caralho! Largou de mão, e apostou na vergonha. Ele fica com vergonha por isso não fala. Ela fica com vergonha e também não fala. Uma ova! Vergonha ficou na quarta série, quando os dois ainda nem se conheciam! Acabou se confortando com o medo, com os receios, afinal ela tinha uma porção deles, justificaria não falar. E Pedro? Pedro, antes de conhecer Isabel viveu um caso de novela: a menina que ele gostava casou, foi morar fora. Ele chorou por muito tempo, demorou uns três anos para esquecer, se é que esqueceu completamente. Mas conheceu Isabel com todos os seus medos e receios. Então resolveram ficar juntos. Resolveram nada! Não resolveram absolutamente nada, para dizer a verdade. Ficaram juntos por sei lá, uns quatro anos e não tinham nada para resolver. Quando as pessoas perguntavam se eles haviam se entendido, Isabel costumava responder que não tinha nada para entender. Eles não se desentendiam, logo, não havia motivo para entendimento algum. Estavam ali, deixaram acontecer. Deixaram rolar. Teve até todo aquele papo de Clarice Lispector sobre ficarem distraídos, mas têm coisas que chamam atenção, uma hora ou outra. E chamou atenção exatamente quando se questionaram sobre o que eram ou o que não eram. A verdade nua e crua: o que ela era? Isabel? Isabel era nada. Pedro era nada. Eles eram isso, ou isso algum. Dá pra ficar distraído numa hora dessas? Não, não dá! Clarice que me desculpe: gente que não repara é boba! E como Pedro uma vez sugeriu, Isabel resolveu deixar de ser. Deixou de ser boba, e de fazer o papel de otária. Ela até conseguia ser má com os homens, mas eles precisavam merecer. Antes ela achava que ele não merecia. Deu carinho, deu beijo, deu até a xereca. Mal da mulher é esse: dar a xereca. A xereca sempre deixa a mulher achando que a coisa ficou importante, afinal a xereca é importante. Balela! Não é importante para eles, ou até é, mas não como é para gente. Homem vê a xereca como um troféuzinho que dependendo da mulher vem com penteados diferentes. O penteado de Isabel era lá um moicano maravilhoso que uma vez disseram ter sido feito sob encomenda. O problema é que Isabel acabou dando sua xereca pro primeiro marmanjo de olhos verdes que cantou Marisa Monte ao pé do seu ouvido, e que colocou Sade como fundo musical pra hora H: Pedro. Na boa, é até meio brega. Mas o mal dos homens é saber dizer e fazer aquilo que nós, mulheres, queremos ouvir. Pronto. Isabel acabou dando. Acabou dando crente que sua xoxotinha seria tão importante para ele como para ela. Mas acho que o afeto de Isabel por sua amiga era um pouco maior porque a via de cima, não sei. Sei que Isabel descobriu que ela era para Pedro isso, só a xoxotinha, e nada mais. Nos anos anteriores, ela sequer se importou, estava com fogo, queria mesmo era dar. Tem gente que aguenta essa história de sexo depois do casamento, Isabel não. Sei que teve strip-tease e tudo. Não tão entendendo?! Ela queria dar! Mas não só a sua amiguinha, é claro. Com o passar do tempo, Pedro até era merecedor de carinho, afinal tinha cantarolado uma música fofinha. Decadência! Vontade é uma merda né? Mas foi, Isabel deu, mas ele só quis a xereca só. O resto não era tão necessário assim. O carinho, Isabel teve que guardar pra si. E foi quando ela percebeu exatamente o que era. Era conveniente, e como bem suas amigas lhe disseram, inconveniente também. Ela era apenas os beijinhos e a foda certa do final de semana. Não teria problema algum se ele fosse, para ela, a mesma coisa. Mas ele não era. Ela lembrou dos olhos verdes, de quando os viu pela primeira vez. Lembrou do quanto quis beijar aquela boca, e do quanto teve que se segurar para não deixar nada transparecer. Quando quis saber o nome do homem, acabou levantando suspeitas, pareceu interessada de mais. O tempo passou. Eis que beijou a tal boca, deu carinho, deu atenção e deu a xoxota. Foi o dar muito que a fez conveniente, e o querer de mais que a tornou inconveniente. Tá aí, Isabel resolveu sair de cena, bateu o portão sem nem olhar para trás. E decidiu que daria seu moicano feito sob encomenda para um cara que nem precisaria ter olhos verdes, bastava um pau um pouco maior. Porque isso sim é que é um inconveniente: pau pequeno! Ih, Pedro!

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